sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A POESIA SAIU À RUA - 2025


1.º LUGAR ex aequo


METADE DE MIM FICOU

Parti com uma mala e um adeus,

mas deixei pedaços de mim espalhados.

Parti sem olhar para trás,

como se o adeus fosse um crime sem perdão.

 

Deixei vozes que me chamavam,

olhares que pediam para eu ficar, 

risos, abraços e promessas de voltar.

 

E agora, no silêncio de um quarto vazio,

pergunto se ainda sou de algum lugar.

 

Cada rua nova me lembra uma antiga,

cada rosto desconhecido me lembra quem ficou.

Vejo sorrisos que não conheço,

mas lembro dos abraços que sempre foram casa.

 

Sinto falta das conversas sem pressa,

do riso fácil dos meus amigos,

do jeito que minha mãe me chamava,

das brincadeiras das minhas irmãs pela casa.

E eu me pergunto: será que também sentem minha falta?

 

Falo, mas a minha voz soa diferente,

como se o vento a tivesse moldado.

Sou estrangeira aqui e lá,

sem raízes, sem chão certo para pisar.

 

A saudade é um idioma que não se esquece,

um peso que se carrega no peito.

Mas talvez, um dia,

eu aprenda a chamar outro lugar de lar.

 

Ricardina Afonso, 11.º D


1.º LUGAR ex aequo

 

 

DECLARAÇÃO DE AMOR

 

Nos teus lábios provo o mel, 

um doce vício que me acende, 

num sussurro quente e cruel 

que me prende… que me rende. 

 

O teu toque é chama ardente, 

pele na pele, sede e febre, 

um delírio tão inocente, 

e tão indecente quanto deve. 

 

Perco-me em cada curva tua, 

mapa secreto, tentação,

lua cheia, noite nua,

corpos juntos, sem razão. 

 

Mas no meio deste fogo, 

entre o desejo e o calor,

és ternura, és o jogo, 

és pecado e és amor.

 

Eva Lopes, 3.º F


1.º LUGAR ex aequo

 

MEDUSA

 

Eu sou Medusa,

não pela serpente que coroa os meus pensamentos,

mas pela culpa que, como veneno, rasteja no silêncio.

Fui pedra antes de me fazer pedra,

antes de erguer os olhos e ver o mundo virar mármore,

disseram-me que o erro era meu,

que as feridas que sangrei foram pela minha pele,

que o crime cometido foi pela minha alma.

 

Como ela, não pedi o toque cruel,

não invoquei a violência que me quebrou,

e, ainda assim, fui punida,

como se os gritos que sufocaram na minha garganta

fossem o eco de uma culpa antiga.

 

O templo que eu era, violado e profano,

não conheceu a justiça dos deuses,

mas o castigo dos homens que me moldaram vilã.

Eu, que só soube chorar nas sombras,

Encontrei o meu reflexo no olhar alheio

e fui monstro, fui a causa e o fim

de tudo que em mim desmoronou.

 

Eles dizem que as minhas serpentes são as minhas palavras,

a minha raiva, o meu medo, a minha dor...

eles dizem que sou culpada por tudo o que vivi.

E, tal como Medusa, fui presa na solidão,

condenada a carregar as marcas

de um castigo que nunca me pertenceu.

 

O que eu fiz?

Perguntei às estrelas, ao mar, à terra,

e ninguém respondeu,

pois não há crime em sofrer,

e não há justiça em ser culpada por existir.             


Sou Medusa,

nascida de dor, moldada pelo peso do mundo.

As minhas lágrimas caíram em silêncios profundos,

mas nunca foram ouvidas,

nunca se tornaram salvação.

 

O que sou, além do reflexo de um crime

que nunca cometi?

O que resta de mim,

além das cicatrizes invisíveis que carrego

como uma coroa amarga?

 

As minhas mãos tremem,

não pelo poder de petrificar,

mas pelo medo que cresceu dentro de mim,

como serpentes que se enroscam no meu peito,

sufocando o que restou de quem eu era.

 

Eles culparam-me,

como sempre fazem com as que sofrem,

dizendo que o sangue em minhas veias

era um convite ao castigo.

Que a dor que carrego nos ossos

é prova da minha culpa,

meu pecado.

 

Cada toque violento,

cada palavra cortante,

foi como veneno derramado na minha alma,

mas ainda sou eu que apodreço,

ainda sou eu que sou julgada.

 

Sou Medusa,

não pela monstruosidade que me impõem,

mas pelo sofrimento que me transformou.

O meu castigo não é pela vingança,

mas pela simples audácia

de ter sido ferida

e ainda assim continuar viva.

 

Sou Medusa,

não pela fúria ou pelas serpentes que me enlaçam,

mas pelo peso da culpa que me arrasta ao chão. 

Fui marcada desde o início,

não pelas mãos que me feriram,

mas por aqueles que disseram

que o erro estava em mim.

 

Culpada pelo toque que eu nunca pedi,

culpada pelas palavras que me rasgaram a alma,

culpada por existir,

como se o meu corpo fosse o altar

onde o castigo fosse justo.

 

Olham-me com desprezo,

e vejo nos seus olhos o reflexo

do que eles acham que sou—

uma sombra de pecados que nunca cometi,

um monstro criado pela dor,

mas condenado por uma culpa que não me pertence.

 

Cada serpente na minha cabeça

sussurra a mesma história:

Tu mereceste,

Tu provocaste,

Tu pediste.

E eu, sem forças para gritar,

aceito o fardo,

aceito o veneno que eles me fizeram beber.

 

Eu sou Medusa,

não porque virei pedra,

mas porque o mundo me endureceu

com suas mentiras.

Culpada pelo que sofri,

castigada por sobreviver.

 

Sou Medusa,

presa num labirinto sem saída,

encurralada entre as paredes de culpa e castigo.

Cada passo que dou,

cada pensamento que respiro,

condena-me mais.

 

Não sei o que fazer,

não sei para onde correr,

pois a culpa segue-me como uma sombra, 

e o castigo, inevitável,

esconde-se nas curvas do meu caminho.

 

Disseram-me que sou a causa

de tudo o que me feriu,

que mereço as correntes invisíveis

que me prendem à dor.

Que cada lágrima, cada grito sufocado,

é apenas reflexo

do erro que dizem estar em mim.

 

E aqui estou,

imóvel como pedra,

mas por dentro quebrada,

fragmentada em pedaços que não consigo juntar.

 

Sou Medusa,

não pelas serpentes,

mas pela culpa que cresce em silêncio,

apertando-me, sufocando-me.

E o castigo não vem de fora,

mas de dentro,

onde ecoa a certeza de que sou responsável

por cada golpe,

por cada queda.

 

Não sei o que fazer,

não sei como escapar

de mim mesma,

das vozes que me acusam

a cada instante,

dizendo-me que sou o monstro e a vítima,

que mereço o castigo de viver aprisionada

na dor que me deram.

 

Júlia Stukas, 12.º K