1.º LUGAR ex aequo
METADE DE MIM FICOU
Parti com uma
mala e um adeus,
mas deixei
pedaços de mim espalhados.
Parti sem
olhar para trás,
como se o
adeus fosse um crime sem perdão.
Deixei vozes
que me chamavam,
olhares que
pediam para eu ficar,
risos, abraços
e promessas de voltar.
E agora, no
silêncio de um quarto vazio,
pergunto se
ainda sou de algum lugar.
Cada rua nova
me lembra uma antiga,
cada rosto
desconhecido me lembra quem ficou.
Vejo sorrisos
que não conheço,
mas lembro dos
abraços que sempre foram casa.
Sinto falta
das conversas sem pressa,
do riso fácil
dos meus amigos,
do jeito que
minha mãe me chamava,
das
brincadeiras das minhas irmãs pela casa.
E eu me
pergunto: será que também sentem minha falta?
Falo, mas a
minha voz soa diferente,
como se o
vento a tivesse moldado.
Sou
estrangeira aqui e lá,
sem raízes,
sem chão certo para pisar.
A saudade é um
idioma que não se esquece,
um peso que se
carrega no peito.
Mas talvez, um
dia,
eu aprenda a
chamar outro lugar de lar.
Ricardina Afonso, 11.º D
1.º LUGAR ex aequo
DECLARAÇÃO
DE AMOR
Nos teus
lábios provo o mel,
um doce vício
que me acende,
num sussurro
quente e cruel
que me prende…
que me rende.
O teu toque é
chama ardente,
pele na pele,
sede e febre,
um delírio tão
inocente,
e tão
indecente quanto deve.
Perco-me em
cada curva tua,
mapa secreto,
tentação,
lua cheia,
noite nua,
corpos juntos,
sem razão.
Mas no meio
deste fogo,
entre o desejo
e o calor,
és ternura, és
o jogo,
és pecado e és
amor.
Eva Lopes, 3.º F
1.º LUGAR ex aequo
MEDUSA
Eu sou Medusa,
não pela
serpente que coroa os meus pensamentos,
mas pela culpa
que, como veneno, rasteja no silêncio.
Fui pedra
antes de me fazer pedra,
antes de
erguer os olhos e ver o mundo virar mármore,
disseram-me
que o erro era meu,
que as feridas
que sangrei foram pela minha pele,
que o crime
cometido foi pela minha alma.
Como ela, não
pedi o toque cruel,
não invoquei a
violência que me quebrou,
e, ainda
assim, fui punida,
como se os
gritos que sufocaram na minha garganta
fossem o eco
de uma culpa antiga.
O templo que
eu era, violado e profano,
não conheceu a
justiça dos deuses,
mas o castigo
dos homens que me moldaram vilã.
Eu, que só
soube chorar nas sombras,
Encontrei o
meu reflexo no olhar alheio
e fui monstro,
fui a causa e o fim
de tudo que em
mim desmoronou.
Eles dizem que
as minhas serpentes são as minhas palavras,
a minha raiva,
o meu medo, a minha dor...
eles dizem que
sou culpada por tudo o que vivi.
E, tal como
Medusa, fui presa na solidão,
condenada a
carregar as marcas
de um castigo
que nunca me pertenceu.
O que eu fiz?
Perguntei às
estrelas, ao mar, à terra,
e ninguém
respondeu,
pois não há crime em sofrer,
e não há justiça em ser culpada por existir.
Sou Medusa,
nascida de
dor, moldada pelo peso do mundo.
As minhas lágrimas
caíram em silêncios profundos,
mas nunca
foram ouvidas,
nunca se
tornaram salvação.
O que sou,
além do reflexo de um crime
que nunca
cometi?
O que resta de
mim,
além das
cicatrizes invisíveis que carrego
como uma coroa
amarga?
As minhas mãos
tremem,
não pelo poder
de petrificar,
mas pelo medo
que cresceu dentro de mim,
como serpentes
que se enroscam no meu peito,
sufocando o
que restou de quem eu era.
Eles
culparam-me,
como sempre
fazem com as que sofrem,
dizendo que o
sangue em minhas veias
era um convite
ao castigo.
Que a dor que
carrego nos ossos
é prova da
minha culpa,
meu pecado.
Cada toque
violento,
cada palavra
cortante,
foi como
veneno derramado na minha alma,
mas ainda sou
eu que apodreço,
ainda sou eu
que sou julgada.
Sou Medusa,
não pela
monstruosidade que me impõem,
mas pelo
sofrimento que me transformou.
O meu castigo
não é pela vingança,
mas pela
simples audácia
de ter sido
ferida
e ainda assim
continuar viva.
Sou Medusa,
não pela fúria
ou pelas serpentes que me enlaçam,
mas pelo peso da culpa que me arrasta ao chão.
Fui marcada
desde o início,
não pelas mãos
que me feriram,
mas por
aqueles que disseram
que o erro
estava em mim.
Culpada pelo
toque que eu nunca pedi,
culpada pelas
palavras que me rasgaram a alma,
culpada por
existir,
como se o meu
corpo fosse o altar
onde o castigo
fosse justo.
Olham-me com
desprezo,
e vejo nos
seus olhos o reflexo
do que eles
acham que sou—
uma sombra de
pecados que nunca cometi,
um monstro
criado pela dor,
mas condenado
por uma culpa que não me pertence.
Cada serpente
na minha cabeça
sussurra a
mesma história:
Tu mereceste,
Tu provocaste,
Tu pediste.
E eu, sem
forças para gritar,
aceito o
fardo,
aceito o
veneno que eles me fizeram beber.
Eu sou Medusa,
não porque
virei pedra,
mas porque o
mundo me endureceu
com suas
mentiras.
Culpada pelo
que sofri,
castigada por
sobreviver.
Sou Medusa,
presa num
labirinto sem saída,
encurralada
entre as paredes de culpa e castigo.
Cada passo que
dou,
cada
pensamento que respiro,
condena-me
mais.
Não sei o que
fazer,
não sei para
onde correr,
pois a culpa segue-me como uma sombra,
e o castigo,
inevitável,
esconde-se nas
curvas do meu caminho.
Disseram-me
que sou a causa
de tudo o que
me feriu,
que mereço as
correntes invisíveis
que me prendem
à dor.
Que cada
lágrima, cada grito sufocado,
é apenas
reflexo
do erro que
dizem estar em mim.
E aqui estou,
imóvel como
pedra,
mas por dentro
quebrada,
fragmentada em
pedaços que não consigo juntar.
Sou Medusa,
não pelas
serpentes,
mas pela culpa
que cresce em silêncio,
apertando-me,
sufocando-me.
E o castigo
não vem de fora,
mas de dentro,
onde ecoa a
certeza de que sou responsável
por cada
golpe,
por cada
queda.
Não sei o que
fazer,
não sei como
escapar
de mim mesma,
das vozes que
me acusam
a cada
instante,
dizendo-me que
sou o monstro e a vítima,
que mereço o
castigo de viver aprisionada
na dor que me
deram.
Júlia Stukas, 12.º K